
Tadeu
nasceu em uma família pobre. Seus pais tinham que trabalhar o dia todo, pois
ambos ganhavam muito pouco para sustentar a família, com outros quatro filhos.
Entregue quase o dia todo ao cuidado da avó, também muito ocupada com tantos
afazeres domésticos e sem a força necessária para educar o menino, Tadeu
cresceu entregue às ruas. Das horas em que passava na escola pública, as que
mais lhe interessavam eram a da merenda e a do recreio, aonde junto com outros
meninos ia recebendo a “verdadeira” educação que mais tarde o dirigiria na
vida.
Muita música funk nos celulares e o estilo “ostentação” dos garotos mais
velhos deixavam-no maravilhado com o mundo que lhe ia sendo apresentando, e para
ele, muito mais atraente do que aquele que a velha avó e as catequistas
insistiam em afirmar ser o “mundo do bem”.
Carente de quase todo tipo de
recurso, a escola não conseguia imprimir em seu espírito os necessários valores
éticos e as noções mais básicas de cidadania desmoronavam frente à selvageria que
destruía carteiras escolares, quadros negros e paredes. Os professores, mal
remunerados e com a motivação quase inteiramente destruída pelo descaso
governamental pela educação, não conseguiam fazer sombra à triste “escola da vida” na qual
Tadeu ia sendo “educado”.
Após
a saída da aula, com rápida passagem em sua casa para almoçar na frente da TV,
Tadeu, aos 11 anos ia conviver com a turma da esquina (pois o abandono do
Estado não oferecia nenhum outro espaço), composta em sua maioria de
adolescentes de várias idades, alguns já acima dos 18 anos. Ali, seu fascínio
era total quando ouvia os mais velhos relatarem as aventuras do último final de
semana, quando, com suas motos (algumas roubadas, outras compradas com dinheiro
de pequenos tráficos ou pelos pais, sob ameaças ou coações de todo tipo),
desafiavam a vida urbana, ensurdecendo as pessoas pela retirada dos
escapamentos, em altas velocidades, às vezes correndo da polícia quando de
algum pequeno furto ou da descoberta do ponto de drogas.
Tadeu ficava extasiado
quando a conversa chegava ao seu clímax, quando os meninos relatavam (muitas
vezes fantasiando, mas outras com relatos verdadeiros) as “pegações” nos bailes
funks, tanto de meninas novinhas e até de algumas mulheres casadas, que se
aproveitavam da disponibilidade dos meninos, que lhes permitiam realizar suas
fantasias a baixo custo.
Embalado
pelas conversas da esquina e pelo assédio vergonhoso da TV, incitando a todo
tipo de consumo e também dos desvarios das novelas e filmes, Tadeu sonhava com
a sua chegada a este mundo formado pelo brilho dos grossos cordões, das
tatuagens que marcariam as aventuras vividas, da adrenalina das fugas nas
perseguições da polícia, da violência do enfrentamento das gangues. Um dia,
pensava, seria respeitado em sua comunidade, pois dominaria as “bocas de fumo”;
teria o amor das menininhas e olharia com desprezo a sociedade que o desprezara
ao longo de sua vida. Um dia, não teria que se sentir inferior aos “brancos”
riquinhos que frequentavam as festas regadas a bebidas (e outras drogas)
liberadas. Um dia, não teria que usar marcas famosas falsificadas e desfilaria
num desses carrões que a tela da TV lhe mostrava de forma deslumbrante...
Do
lado do caixão, com os olhos marejados, a avó de Tadeu sente o punhal da dor
lhe atravessar o coração e o amargor da derrota de não ter conseguido imprimir
os valores de sua fé àquele coração de apenas 16 anos, que agora não bate mais.
Do outro lado, sua mãe num pranto entre desesperado e histérico, lhe fazer
dizer coisas sem sentido, como uma enxurrada de palavras que não foram ditas
pela falta de tempo ou de horizontes. Em torno, as poucas pessoas presentes
conformadas com mais uma morte antes do tempo, contemplam uma cena que já lhes
parece comum pelo número de repetições.
Tadeu
foi morto como um inseto indesejado, cuja morte não se lamenta, apenas torna-se
estatística no mapa da violência de nossas cidades. Sua morte e seu nome logo
serão esquecidos; ficarão apenas cicatrizes profundas no seio de sua família.
Em sua turma, cuja ausência foi notória no velório, outros meninos estão sendo
preparados na escola da morte.
Pe.
Walter